terça-feira, 19 de junho de 2012

Missão Transformadora, David Bosch


Missão Transformadora David J. Bosch
FATERJ, resenha feita do cap.3 da obra de Bosch para cumprir as exigências do curso de Bacharel em Teologia da disciplina Ciências Bíblicas III, Ms. Marcio Vasconcelos
Liana Costa
RJ 19/06/2012




David J. Bosch, membro da Igreja Reformada Holandês, fez sua primeira experiência missionária na região do Transkei (1957-1971) na África do Sul. Depois, foi professor de missiologia na Universidade de Pretória por 24 anos. Duas vezes decano da Faculdade de Teologia (1974-77; 1981-87) e Secretário da Sociedade Sul-africana de missiologia desde sua instituição em 1968, foi também diretor e inspirador da importante revista Missionalia desde sua fundação em 1973. A sua produção teológica e literária, A Spirituality of the Road (1979), Witness to the World (1980), The Lord´s Prayer: Paradigm of a Christian Lifestyle (1985), The vulnerability of Mission (1991), mais uns sessenta artigos e palestras dadas no mundo inteiro, indica o seu trajeto que culminará com a publicação da obra mais prestigiosa. O seu compromisso com a situação da África do Sul nos anos 80, levou-o a recusar a oferta de assumir a cátedra de missiologia num dos mais prestigiosos seminários dos Estados Unidos. Morreu tragicamente no dia 5 de abril de 1992 num acidente de carro, um ano após ter sua tese publicada.
Apóstolo Lucas, um médico de excelente escrita, culto, nascido em Antioquia, amigo de Paulo de Tarso, e segundo seus próprios relatos não chegou a ter contato pessoal com Cristo, já que o mesmo foi crucificado anda na sua infância. A compreensão de missão descrita por Lucas difere significativamente daquela passada por Mateus 2, e  Paulo 4.Bosch introduz esse capítulo descrevendo algumas razões que julgou importantes para examinar mais de perto a compreensão de Lucas acerca da missão, são elas: a versão dada por Lucas ao sermão de Jesus na sinagoga, em Nazaré, aplicando a profecia de Isaías, outra é o próprio fato da centralidade da missão nos escritos de Lucas, outra razão é a diferença básica existente entre ele e os outros três evangelistas, levando em conta que Lucas continuou sua obra no livro de Atos, e a comparação de Lucas com Mateus. O livro de Mateus era predominante no sentido de proporcionar uma fundamentação bíblica da missão, mas nos ultimo tempos á escrita de Lucas também se tornou assunto de debates para fundamentar a missão, principalmente pela sua versão dada ao sermão de Jesus na sinagoga. Bosch escreve que possivelmente Lucas foi o único autor gentílico, escreveu para comunidades gentílicas, visando muitas comunidades, e não somente uma como fez Mateus, que era provavelmente um cristão-judaico, escrevendo para uma comunidade judaico-cristã. Encontrando semelhanças entre Lucas e Mateus, algumas são: a data de escrita igual, possivelmente na década de 80; fizeram uso das mesmas fontes( o evangelho de Marcos e a fonte Q); Suas escrita são para comunidades de transição. A pesar do empenho de Paulo em expandir o evangelho de Jesus através de missões e de suas viagens, Lucas se mostra muito preocupado com o passar do tempo, com a morte das primeiras testemunhas de Jesus de Nazaré, com movimento Zelota proporcionando uma guerra judaica, os gentios que estavam com uma crise de identidade, e a volta de Cristo que era esperada e não aconteceu naquele primeiro momento. Lucas teve o trabalho de passar para as pessoas daquela época, que a esperança no Cristo não poderia morrer jamais, Ele ainda está com os gentios, não os abandonou. Lucas relata a história de Jesus e da igreja Primitiva voltando constantemente á alguns temas: o ministério do ES, arrependimento, perdão, oração, amor e aceitação dos inimigos, justiça, relacionamentos interpessoais. Como categorias específicas estão: os pobres, as mulheres, e a barreira social e religiosa. Nesse evangelho a Igreja é chamada a imitar as práticas de Jesus. Bosch faz algumas críticas sobre as afirmações de Hans Conzelmann sobre Lucas em seu livro “O centro do tempo”. Bosch se mostra contrário á muitas afirmações de Hans, mais concorda com a afirmação que Lucas era antes de mais nada, um teólogo que queria comunicar uma compreensão específica de Jesus e de sua vinda(p. 116-117). Lucas articula sua teologia de missão na escrita de dois livros, já que escreveu também o livro de Atos. Alguns estudiosos afirmam que Lucas tinha a intenção desde o inicio de escrever dois volumes, pelo fato de somente mencionar aos gentios na perícope final (Lc. 24-47). Lucas usa uma estratégia geográfica notada na escrita de um Jesus centrado em solo judaico, na Galiléia e em Jerusalém. Já em Atos temos a descrição do nascimento e crescimento da igreja em Jerusalém, a expansão da igreja para Samaria e planícies litorâneas, o avanço missionário terminando com a chegada de Paulo a Roma. Lucas considera e reescreve que o episódio de Marcos onde relata o inicio do ministério de Jesus como um incidente excepcionalmente significativo, como uma forma de discurso programático que tem a mesma função de abrir o inicio do ministério de Jesus, e, com a mesma função o Sermão do Monte no evangelho de Mateus. Provavelmente as pessoas de Nazaré da época tiveram dificuldade em aceitar a pretensão de Jesus, por isso a razão de mostrar um Deus que não era somente dos judeus, mais dos gentios, como Naamã, que era Sírio. Por essa razão podemos perceber como relata Bosch, que Lucas descreve uma orientação claramente voltada para os gentios. Segundo, Lucas-Atos, Samaria foi o inicio da missão aos gentios, onde há relatos centrais nas passagens de Jesus da Galiléia para Jerusalém, onde há um episódio que inicia com Jesus se encontrando com os samaritanos. Mesmo os samaritanos não oferecendo abrigo para Jesus, e assim, suscitando a ira dos discípulos Thiago e João, toda via, Jesus repreende os discípulos e vai para outra aldeia. Seria mais fácil para os judeus entenderem plenamente a reação dos discípulos, pois os mesmos consideravam os samaritamos piores que os gentios, pois os mesmos profanaram o templo de Jerusalém e mataram um grupo de peregrinos judaicos. Uma pergunta sobre o cumprimento da lei fez com que Jesus narrasse a parábola do bom samaritano. Bosch nos informa que a figura do samaritano representa a profanidade, já que os samaritanos eram considerados também inimigos de Deus, onde completa dizendo que a parábola assinala um passo significativo, altamente provocador e novo no ministério de Jesus. Já no relato da cura dos dez leprosos, Lucas centraliza novamente nos samaritanos, nos informando que entre os dez, nove eram judeus, e o único samaritano que há no grupo, é o que volta para agradecer á Jesus pelo milagre concedido. Esses três relatos citados acima, nos leva á uma conclusão obvia que o Senhor ressurreto veio também para os samaritanos, depois de Jerusalém e Judéia, sugerindo uma ruptura com as atitudes judaicas daquela época. Na realidade essa centralidade de missão descrita por Lucas em seu evangelho, está indo de encontro ao desfecho da morte e ressurreição de Jesus, o Messias, mostrando a verdadeira missão cristã. O caráter judaico de Lucas mostra que ele tem uma atitude excepcionalmente positiva para com o povo judeu, sua cultura e religião. Á prova disso é que a critica feita por Jesus aos fariseus não é tão severa quanto no evangelho de Mateus. Lucas também enfatiza seu evangelho na trajetória de Jesus indo em direção á Jerusalém que era o centro sagrado do mundo, onde o Messias faria sua aparição, e onde todas as nações, judeus e gentios, se reuniriam para adorar a Deus. Os pais de Jesus são judeus praticantes tradicionais, e Jesus, por conseguinte também vivia de acordo com os costumes dos pais. Por isso Bosch relata que ao longo de todo livro de Atos, se enfatiza que o evangelho tem que ser proclamado primeiro para os judeus e depois para os gentios. Citando o episódio do Dia de Pentecostes(p.127), onde gentios foram incorporados aos judeus, para mostrar que não há separação no povo de Israel, e sim uma inclusão, nesse momento os judeus tornaram-se o que verdadeiramente eram, Israel. Para Lucas, o conceito pneumatológico selava a afinidade entre a vontade salvadora universal de Deus, o ministério libertador de Jesus e a missão mundial da igreja; Sua correlação das missões aos judeus e aos gentios. A igreja cristã nunca poderá se esquecer de que se desenvolveu, de maneira orgânica e gradativa, a partir do seio de Israel e que, por isso, como outsider, não poderá reivindicar as prerrogativas históricas de Israel;Sua Eclesiologia. Lucas considera a vida de Jesus e a história da igreja como estando unidade numa só era do Espírito. Bosch manifesta a compreensão que Lucas deseja que os ricos compreendam a mensagem de Jesus e se moldem a forma de viver de Jesus e seus discípulos, motivando a uma conversão para viverem uma vida de acordo com a mensagem social de Jesus. Dentro deste contexto, Lucas apresenta as reações de Zaquel e do jovem rico diante da mensagem de Jesus. A questão dos pobres relatado em Lucas não se refere somente aos pobres de espírito, mas também aos pobres de valores. A pobreza é uma categoria social em Lucas(p.130). E somente com esses relatos dos pobres no livro de Lucas é que podemos ter a percepção para o entendimento do relato que Lucas faz dos ricos. Bosch informa que o Jesus lucano, é um Jesus humilde, que veio para curar os enfermos, dar liberdade aos cativos. Ele veio como ungido de Deus para dar um destino diferente aos pobres, e escreve alguns versículos do livro de Isaias. É um desafio interpretar a História de Jesus de Nazaré dentro do pensamento lucano, e é nossa tarefa tentar enquadrar os acontecimentos do nosso tempo nessa perspectiva lucana. A visão lucana  mostra um Jesus preocupado com também com os ricos: como Zaqueu e o Jovem rico, ambos com destinos diferentes, de acordo com suas escolhas. O paradigma missionário de Lucas é a salvação que inclui não somente os judeus, mas também os gentios, não somente a casta religiosa, mas também os pobres, os samaritanos, os enfermos. O Evangelho de Lucas dá uma atenção especial à temática dos excluídos da sociedade pela pobreza, doença e religião. Já o livro no livro de Atos, temos uma descrição detalhada da expansão inicial que a igreja teve principalmente através das figuras do apóstolo Pedro e Paulo. Em Atos, temos, de maneira explicita o conflito entre judeus cristãos e os gentios. Porém, o elo tanto de pobres com ricos, de judeus e gentios, é o Espírito Santo, Aquele que está no lugar de Jesus. Assim, Bosch conclui que “a estreita ligação de pneumatologia e missão é a contribuição distintiva de Lucas para o paradigma missionário da igreja incipiente”. Não haverá missão bem sucedida enquanto a mensagem que extraímos da Palavra de Deus não for o Evangelho do Reino em sua essência, conforme pregado por Jesus e pelos apóstolos. A consequência de se pregar o Evangelho do Reino é que pregaremos compromisso, submissão, e a realidade da vida eterna aqui e agora. O inverso – o evangelho da salvação e da vida depois da morte – só poderá gerar falta de compromisso e falta de interesse, uma vez que só se extraí da cruz aquilo que se quer. Não basta sermos pregadores da justificação e nos esquecermos da santificação e da esperança. Santificação é a vida no Reino hoje, que se dá pelo discipulado. Não há graça maior que essa. A vida no Reino é vida que está sendo formada, através do ensino, da repreensão, da alegria e do amor. Estou extremamente grata por ter sido apresentada á escrita dessa tese de Bosch, onde consegui abrir meus horizontes para uma nova percepção do que realmente é a prática da Missão Evangélica, o nascer da Igreja, o mover do Espírito de Deus que habita em nós e consegue transbordar de maneira tal que contagie e consiga suprir as necessidades não somente minha mais do meu vizinho, do meu irmão, do meu amigo, ou de qualquer outra pessoa que talvez nem tenha tido contato pessoalmente. Esse Espírito de Deus que nos faz praticar as boas obras com amor, sem olhar a quem, sem desejar algo em troca, ou reconhecimento de seus beneficiários. Não é por acaso que Missão transformadora recebeu aclamações críticas e é reconhecida como uma obra magistral, monumental e uma  excelente referencia de ensino. Um clássico no estudo da Missão cristocentrica.




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