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sexta-feira, 29 de março de 2013

1.3 A História da Morte de Jesus*


                        Jesus ou Barrabás? Lemos que o criminoso Barrabás, já preso por sedição e homicídio, foi solto. Mas que Jesus, inocente de qualquer acusação, foi entregue ao cruel castigo de açoites.

                        É incrível como a natureza humana, representada naquele momento pelas autoridades judaicas e pela multidão de judeus que se tinham reunido diante do palácio do governador, se voltou tão ferozmente contra o seu próprio Criador. Em altos brados eles exigiram a soltura de Barrabás e a crucificação de Jesus. Pilatos procurou eximir-se de sua responsabilidade lavando as mãos diante do povo, como que a dizer: “Estou livre do sangue deste inocente” [1].

                        Alguns textos atestam isso: Mateus 27.45: E, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona”.

“‘E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é a vossa fé’, diz Paulo em 1 Cor.15.14. Se a Cruz de Jesus é chamada de ‘fato-central’ da fé cristã, então sua ressurreição deve ser chamada de data primordial da fé cristã”, diz Jürgen Moltmann em O Deus crucificado[2].

 

       Cristo nasceu para também revisar a instituição do sacrifício, na narrativa dos evangelhos não há um momento que ele mande ou faça sacrifícios, em nenhuma de suas pregações há sacrifício. Jesus assume a Redenção nEle mesmo, na Graça que custa a sua própria vida. Corrigir a expressão “Ele morreu para nos salvar”, para “ele viveu para nos salvar”. Não só a morte, mas a sua vida inteira é salvífica. A morte é a erradicação desse ser de Jesus. A morte é necessária porque Jesus anuncia o RD, e não é acolhido, e esse não acolhimento se transforma numa perseguição. Ninguém tira a vida, e sim dá a vida. Não morrer seria renunciar a salvação. Salvação é outro modo de existir. Jesus já nos salva na encarnação e continua nos salvando na pregação. Sua morte é salvífica e sua vida inteira é alcançada na redenção, reintegrando a vida no plano divino. O Deus que vem é o mesmo que vai, levando a realidade na própria pessoa humana. Salvação é vida e não morte, e vida gera vida. Jesus ressuscitou, nossa pregação é vã se isso não aconteceu[3].

 

                        Jesus sofreu e morreu, no evangelho de Mateus está relatada a hora do evento divino: “e, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona”. Esse é apenas um espaço curto de tempo, pelo qual Jesus se submeteu naquela semana Pascal, que pela hora o Sol deveria estár raiando na imensidão celeste, mas não foi isso que aconteceu, naquele momento a escuridão sobrenatural tomou conta do Céu azul.

                        A morte de Cristo é a trama que dá estrutura ao relato do evangelho. Os quatro autores dos evangelhos, cada um a seu modo, contam a história da paixão de Jesus, seu sofrimento e morte, e depois acrescentam uma introdução ampliada.

                        Jesus morreu. Não há como evitar esse fato fundamental. E, de uma forma ou de outra, eu também vou morrer. Não há como evitar esse fato igualmente fundamental. Nessa conjunção de mortes, a de Jesus e a minha, é onde começo a receber a salvação. Paulo condensa toda a operação de Deus em nossa vida nas seguintes palavras, e mais nada: "Jesus Cristo é este crucificado" (1 Co 2.2), o até então futuro apóstolo Paulo participa dessa crucificação(Gl 2.19-20).

                        Nada no relato sobre Jesus poderia ser mais claro ou apresentado de modo mais inequívoco do que isto: que Jesus escolheu o caminho do sofrimento e da morte; que ele o fez em continuidade com toda a história do povo de Deus antes dele; e que esse sofrimento e essa morte foram querigmáticos. O sofrimento, o pior que a vida pode nos oferecer, é a substância da qual nossa salvação é formada.

                        A morte de Jesus é uma morte sofrida em fidelidade a sua vocação. Não é simplesmente o destino de morrer que dá valor ao sacrifício da morte de Jesus, mas também a questão da vida como sublime forma de aceitação de sua vocação, dando uma cosmovisão da vida maravilhosamente ativa para o RD que Jesus viveu.

                        A história da morte de Jesus, conforme relatada por Marcos, é uma sequência dramática. Duas frases introduzem esse drama. O tempo é definido claramente: dois dias antes da Páscoa, quando milhares de cordeiros estão sendo abatidos para a festa anual. É a celebração ritual da salvação do Êxodo, o acontecimento definidor da história judaica. Nesse momento, os líderes religiosos estão à caça de Jesus. A morte paira no ar. Aquele que veio para dar Vida aos homens, estava prestes á ser morto. Somente a crucificação de Cristo, o homem perdido tem a chance de uma nova vida.

 

“Os crentes já não vivem mais apenas nesse mundo perdido e dominado pela morte. Nele, o futuro do novo mundo da vida já se  apoderou deste mundo perdido e dominado pela morte, o condenando a ser um mundo que passa. Por isso mediante a fé no Jesus ressuscitado, vivemos no meio de um passageiro mundo de morte, mas pelas novas forças do novo mundo de vida que já irrompeu nele” [4].

 

                        Cristo venceu a morte, porque Ele também tem poder sobre a morte. Assim como na introdução de Apocalipse, Paulo chama Cristo de o primogênito de toda a criação e o primogênito dos mortos, especificamente referindo-se à sua soberania sobre a criação e a morte. Jesus havia ressuscitado outras pessoas dos mortos, mas é Jesus quem se mostrou vitorioso sobre a morte. O termo “primogênito” reflete a noção hebraica de o primogênito ser dado um lugar de importância especial[5].

 

Não está mais de acordo com o Novo Testamento afirmar que com Cristo começa a escatologia e a nova ordem, que ele é uma chave hermenêutica para descobrir Deus na nossa história? Cristo mesmo, que é a Palavra do Pai (Jo 1.18 diz magnificamente a respeito do Logos= Palavra que o Pai revelou = exegésato), não disse tudo. Deixou seu Espírito para que nos ensinasse (Jo 14.26) e nos conduzisse à verdade plena (Jo. 16.13 hodegései humas en te alethéia pase). A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífica, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou[6].

                       

                        Crucificado de forma errada, e ao mesmo tempo Glorificado. Jesus é o RD. Quando Jesus é ressuscitado junto dele vem sua vida inteira e não somente seu caráter. A ressurreição é a coroa da vida fundamental, Jesus foi fiel até a morte. A salvação é exclusivamente em Jesus, no sentido amplo em fazer dos homens discípulos, seguidores de Jesus, seguidores não de um ser inanimado, mas sim, de um ser vivo, presente, real.

                        Com a ressurreição de Jesus Cristo se inicia a promessa e a abertura para o futuro. A ressurreição é prolepse do que será o futuro, mas o futuro não se esgota com a ressurreição, mas antes, confirma antecipadamente a promessa da glória e do senhorio do futuro RD.

                        O apóstolo Lucas descreve o momento pós-ressurreição diferente dos outros sinóticos:

 

O livro de Lucas apresenta uma narrativa diferente da ressurreição de Cristo. Todos os escritores mencionam a visita das mulheres à sepultura; mas o aparecimento do Senhor aos discípulos a caminho de Emaús só é contado por Lucas. Ele fornece três episódios principais da Ressurreição: a anunciação às mulheres, a caminhada para Emaús, e o aparecimento no cenáculo. Ele conclui o Evangelho com a ascensão em Betânia[7].

 

                        Vivemos em uma era pluralista, não somente social, mas também teológica, onde é apresentada uma diversidade infinita de interpretações bíblicas. A intenção não é mostrar qual evangelho está correto em sua escrita, e sim, mostrar essa inclusão que o evangelho de Lucas, escrito por um homem amoroso e detalhista, dá as classes menos favorecidas de gentios excluídos da época de Jesus, dando-lhes uma visão abrangente de que Cristo veio para judeus e não judeus. Croatto escreveu: “Aqueles que sofrem devem esperar que os que estão bem lhes expliquem o sentido da mensagem de libertação da palavra de Deus? A questão da ‘apropriação’ do sentido também se coloca neste caso”[8]. Mulheres, crianças, enfermos, pobres, gentios, prostitutas etc., esses eram os sofredores da época de Jesus.

 

Esta abertura para o futuro começa com o comissionamento apostólico da Igreja Primitiva e as aparições do Cristo ressuscitado. Essas aparições: “só é compreensível se o próprio Jesus ressuscitado ainda tem um futuro, um futuro universal em favor dos povos da terra” [9].

 

                        O Deus que se faz conhecer em Jesus é o que cura os cegos, faz andar os coxos, acolhe os pecadores, dá pão aos famintos, põe o homem acima do sábado, anuncia o RD, e não o de César. A teologia lucana é uma teologia inclusivista, mostrando que a linguagem do amor de Deus é universal, e a salvação é um desejo de Deus para a humanidade inteira. O Messias Judeu é o salvador de todos os povos e nações. Jesus rompe a Lei para incluir aqueles que estão fora da Lei.

                        O panorama textual descrito nesse capítulo expressa que o Dia do Senhor já aconteceu através de Jesus Cristo encarnado, na sua primeira vinda ao Mundo.

 *ESSE TEXTO É UMA PEQUENA PARTE DO MINHA MONOGRAFIA FEITA PARA O CURSO DE BAXAREL EM TEOLOGIA PELA FAECAD, CUJO TEMA FOI:
 


O DIA DO SENHOR
UM OLHAR PRESENTE E ESCATOLÓGICO DO DIA DO SENHOR EM PARALELO COM A CHEGADA DO REINO DE DEUS



[1]  CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Volume III. P.709
[2] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.201.
[3] Aula do dia 04/04/2012, Professor Doutor Alessandro Rocha, Disciplina Sistemática III, FATERJ, 19:00hrs.
[4] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.213.
[5] MOODY, 571, citando Éxodo 4.22, Jeremias 31.9 e Salmo 89.27.
[6] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.51.
[7] MODDY. Lucas, p.105.
[8] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.43.
[9] MOLTMANN, J. Teologia da Esperança, p.100.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ELE VENCEU A MORTE

A história da morte de Jesus, conforme relatada por Marcos, é uma sequência dramática. Duas frases introduzem esse drama. O tempo é definido claramente: dois dias antes da Páscoa, quando milhares de cordeiros estão sendo abatidos para a festa anual determinada á partir da saida do povo Hebreu do Egito. É a celebração ritual da salvação do Êxodo, o acontecimento mas aguardado da história judaica. Nesse momento, os líderes religiosos estão à caça de Jesus. A morte se faz presente no ar. Aquele que veio para dar Vida aos homens, estava prestes á ser morto. Somente a crucificação de Cristo, o homem perdido tem a chance de uma nova vida.

“Os crentes já não vivem mais apenas nesse mundo perdido e dominado pela morte. Nele, o futuro do novo mundo da vida já se  apoderou deste mundo perdido e dominado pela morte, o condenando a ser um mundo que passa. Por isso mediante a fé no Jesus ressuscitado, vivemos no meio de um passageiro mundo de morte, mas pelas novas forças do novo mundo de vida que já irrompeu nele” [1].

                        Cristo venceu a morte, porque Ele também tem poder sobre a morte. Assim como na introdução de Apocalipse, Paulo chama Cristo de o primogênito de toda a criação e o primogênito dos mortos, especificamente referindo-se à sua soberania sobre a criação e a morte. Jesus havia ressuscitado outras pessoas dos mortos, mas é Jesus quem se mostrou vitorioso sobre a morte. O termo “primogênito” reflete a noção hebraica de o primogênito ser dado um lugar de importância especial[2].

Não está mais de acordo com o Novo Testamento afirmar que com Cristo começa a escatologia e a nova ordem, que ele é uma chave hermenêutica para descobrir Deus na nossa história? Cristo mesmo, que é a Palavra do Pai (Jo 1.18 diz magnificamente a respeito do Logos= Palavra que o Pai revelou = exegésato), não disse tudo. Deixou seu Espírito para que nos ensinasse (Jo 14.26) e nos conduzisse à verdade plena (Jo. 16.13 hodegései humas en te alethéia pase). A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífica, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou[3].
         

                        Crucificado de forma errada, e ao mesmo tempo Glorificado. Jesus é o RD. Quando Jesus é ressuscitado junto dele vem sua vida inteira e não somente seu caráter. A ressurreição é a coroa da vida fundamental, Jesus foi fiel até a morte. A salvação é exclusivamente em Jesus, no sentido amplo em fazer dos homens discípulos, seguidores de Jesus, seguidores não de um ser inanimado, mas sim, de um ser vivo, presente, real.

                        Com a ressurreição de Jesus Cristo se inicia a promessa e a abertura para o futuro. A ressurreição é prolepse do que será o futuro, mas o futuro não se esgota com a ressurreição, mas antes, confirma antecipadamente a promessa da glória e do senhorio do futuro RD.

                        O apóstolo Lucas descreve o momento pós-ressurreição diferente dos outros sinóticos:


O livro de Lucas apresenta uma narrativa diferente da ressurreição de Cristo. Todos os escritores mencionam a visita das mulheres à sepultura; mas o aparecimento do Senhor aos discípulos a caminho de Emaús só é contado por Lucas. Ele fornece três episódios principais da Ressurreição: a anunciação às mulheres, a caminhada para Emaús, e o aparecimento no cenáculo. Ele conclui o Evangelho com a ascensão em Betânia[4].

                        Vivemos em uma era pluralista, não somente social, mas também teológica, onde é apresentada uma diversidade infinita de interpretações bíblicas. A intenção não é mostrar qual evangelho está correto em sua escrita, e sim, mostrar essa inclusão que o evangelho de Lucas, escrito por um homem amoroso e detalhista, dá as classes menos favorecidas de gentios excluídos da época de Jesus, dando-lhes uma visão abrangente de que Cristo veio para judeus e não judeus. Croatto escreveu: “Aqueles que sofrem devem esperar que os que estão bem lhes expliquem o sentido da mensagem de libertação da palavra de Deus? A questão da ‘apropriação’ do sentido também se coloca neste caso”[5]. Mulheres, crianças, enfermos, pobres, gentios, prostitutas etc., esses eram os sofredores da época de Jesus.
 
Esta abertura para o futuro começa com o comissionamento apostólico da Igreja Primitiva e as aparições do Cristo ressuscitado. Essas aparições: “só é compreensível se o próprio Jesus ressuscitado ainda tem um futuro, um futuro universal em favor dos povos da terra” [6].

                        O Deus que se faz conhecer em Jesus é o que cura os cegos, faz andar os coxos, acolhe os pecadores, dá pão aos famintos, põe o homem acima do sábado, anuncia o RD, e não o de César. A teologia lucana é uma teologia inclusivista, mostrando que a linguagem do amor de Deus é universal, e a salvação é um desejo de Deus para a humanidade inteira. O Messias Judeu é o salvador de todos os povos e nações. Jesus rompe a Lei para incluir aqueles que estão fora da Lei.



[1] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.213.
[2] MOODY, 571, citando Éxodo 4.22, Jeremias 31.9 e Salmo 89.27.
[3] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.51.
[4] MODDY. Lucas, p.105.
[5] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.43.
[6] MOLTMANN, J. Teologia da Esperança, p.100.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O “Já” e o “Ainda Não”

O mundo está em uma caminhada histórica e contínua, rumo à consumação final. O tempo, denominado pelo profeta, "o grande e terrível dia", é usualmente, intitulado o dia do Senhor, nas Escrituras. O espaço da criação do homem sobre a terra, até o fim de todas as coisas, é o dia dos filhos dos homens; o tempo que está agora passando sobre nós é propriamente nosso dia; quando este acabar, o dia do Senhor plenamente começará com o RD plenamente estabelecido. Mas quem pode dizer por quanto tempo ele continuará? Visto que para "o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia?" (2 Pedro 3.8) E, desta mesma expressão, alguns dos antepassados esboçaram aquela inferência, aquele, que é comumente chamado o dia do julgamento, seria, de fato, mil anos; e parece que eles não foram além da verdade; mais do que isto: provavelmente eles não avançaram para ela. Porque, se nós considerarmos o número de pessoas que serão julgadas, e as ações que serão inquiridas nisto, não parece que mil anos serão suficientes para as transações daquele dia; de maneira que não pode ser improvável abranger diversos mil anos. Mas Deus deverá revelar isto também há seu tempo, somente há seu tempo.

Se o nosso Deus reina eternamente e reinará para sempre, falaremos, “neste sentido, de uma escatologia perfeita, de uma escatologia presente e de uma escatologia futura, bem como de uma escatologia que poderíamos chamar de transcendental, enquanto está se referindo ao agir do Deus eterno dentro, aquém e além de todos os tempos escatológicos” [1]. A escatologia perfeita, para Claus Schwambach, é a irrupção da eternidade para dentro do tempo, da presença da salvação escatológica na pessoa e na obra de Cristo em sua primeira vinda ao Mundo. A escatologia presente é apresentada como o Evangelho que anuncia o perdão, ela manifesta agora, de forma antecipada, o veredito de Deus como Juiz final. A palavra da cruz atualiza tanto o passado como o futuro, dando-nos validade no presente. A escatologia futura tem como conteúdo a esperança cristã da ressurreição, o arrebatamento, a segunda vinda de Cristo, o juízo final, o fim do mundo, a nova criação, céu e inferno, e enfim, a vitória final.“[...] quando ele entregar o reino a Deus, o Pai, quando houver destruído todo domínio, toda autoridade e todo poder. Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés” (1Co 15.24,25)[2].

 

Segundo Mateus 4.17, o “reino de Deus não tem significado estritamente temporal. Ele expressa dinamicidade, atividade e está sempre orientado teocraticamente” [3]:Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”.

                        O grande problema deste ensinamento de Cristo que o RD está perto, é que tem sido quase dois mil anos desde que ele ensinou isso. Assim aparece que não tem sentido real em que o Reino podia ter sido “perto” no momento que ele viveu. Os comentaristas conservadores dizem que a palavra “perto” refere-se ao fato que o Reino foi “imanente,” e isto podia acontecer em qualquer momento. Mas então, não seria uma mensagem excitada. Ostensivamente, o Reino podia vir em qualquer momento de 1.000 (mil) anos, dias, semanas, qualquer período.

                        Alguns teólogos declaram que o Reino estava “perto” porque o Cristo estava lá pessoalmente, mas esta explicação pode ser uma explicação forçada. Cristo não disse que “o Rei” estava perto. Ele disse que “o Reino está perto,” e o que queria dizer aos seus ouvintes que todas as promessas acerca do Reino no AT serão cumpridas.

                        O controle do homem sobre o tempo é restrito e inseguro, a humanidade vive na inquietação acerca do tempo final. Na virada do milênio todo mundo viveu sob o temor pela tensão do que poderia acontecer. Nem a vida Moderna em sua época mais avançada na ciência e na tecnologia, em que o homem se põe no centro do universo exibindo seu domínio sobre a criação, foi capaz de não deixar-se apavorar pela expectativa do fim do mundo. A incerteza quanto ao tempo escatológico apavora tanto os mais ignorantes como os mais intelectuais, tanto os religiosos como os ateus.

                        A monarquia teocrática relacionada na Bíblia não alcançou a legitimidade dentre as dinastias, tendo apenas algumas sinalizações no reinado de Davi e Salomão, evidenciou-se o contraste entre aquilo que era e aquilo que deveria ser, renovando, assim a esperança escatológica.

Logicamente, não se duvida que Deus seja Rei, mas a concretização de sua realeza torna-se objeto de esperança. Em outros termos, a “teocracia” é aguardada no futuro, ela passa a ser escatológica[4].

           

                                Somando Cristo ao Dia do Senhor e o RD, também podemos acrescentar á essas somas o RD estabelecido no mover do ES no Dia de Pentecostes, dando á Era eclesiástica uma grande missão que é proclamar o evangelho de Cristo a todas as nações. Como, porém, se arrependerão se não ouvirem do seu perdão? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Com esse desafio, Pedro fala que devemos esperar e apressar a vinda plena do RD (2 Pe 3.12).

                        Todo cristão tem como desafio, pregar as boas-novas a cada criatura, e fazer discípulos de todas as nações! O cristão tem o grande privilégio e a grande responsabilidade de apressar a segunda vinda de Cristo. Por esse motivo a Igreja deve assumir o compromisso da obediência missionária e cumprir a sua missão de evangelização mundial. Além de anunciar o RD, e revelar os seus mistérios, Jesus incumbiu os seus discípulos de fazerem o mesmo; a igreja primitiva fez isso. O "Já" em Cristo agora e aqui é que determina o "amanhã" com Ele no porvir do além. Em sentido espiritual o Cristão já habita o Céu: "E juntamente com ele (Jesus) nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus".

 



[1] SCHWAMBACH, C. Escatologia. Apostila do Curso Avançado em Teologia e Bíblia. Faculdade Luterana de Teologia do CETEOL, São Bento do Sul, 2001, p.3.
[2] NEUTZLING, I. S. J. O Reino de Deus e os pobres, Loyola, São Paulo, 1986, p.50.
[3] Ibid.
[4] BRAKEMEIER, G. O Reino de Deus e esperança Apocalíptica, p.26.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A PRIMEIRA VINDA DE JESUS CRISTO, A PAROUSIA, COMO ANUNCIO DA CHEGADA DO “REINO DE DEUS”


                        Antes de abordarmos um cumprimento do plano de Deus por meio de Jesus Cristo em sua primeira vinda se faz necessário resgatar brevemente algumas considerações sobre o reino de Deus.

                        A pregação do Reino é o tema central dos evangelhos sinópticos. O Reino de Deus foi uma oferta feita ao povo de Israel, através de Cristo, porém, eles o rejeitaram. No quarto livro do NT, o evangelho de João, o RD representa salvação, vida eterna. Alguns historiadores dizem que o contexto da escrita de João condiz com um período em que os homens estão desacreditados neste mundo.[1]

Nos dias de Jesus, ao longo da história da igreja, o RD tem sido objeto de diferentes entendimentos. Orígenes afirmou que o próprio Jesus era o Reino; alguns entendem que o Reino se refere a um relacionamento apropriado com Deus; outros o têm identificado com a igreja visível ou com uma ordem social transformada; ainda outros têm insistido que Jesus se referia a uma intervenção apocalíptica da parte de Deus.

“Para os homens, a vinda escatológica de Deus significa o juízo e a salvação. Para Deus, ela equivale à manifestação da sua glória, ou de seu Nome e à instauração do seu Reino”.[2]

 

O Reino. Esse é um assunto extremamente complexo. Nos evangelhos sinópticos encontramos o reino político. Israel será restaurado, tendo o Messias como seu cabeça. Mas isso também inclui a idéia do reino entre os homens, porque o Rei estará entre eles. No evangelho de João, porém, o reino é um sinônimo virtual da salvação ou vida eterna, o que significa que esse conceito é ali totalmente espiritualizado. Em Romanos 14.17, o reino é um sinônimo virtual da atual espiritualidade cristã.[3]

 

                       

Em seu livro O Reino de Deus na América (1937), H. Richard Niebuhr demonstrou que o tema do RD dominou o pensamento teológico americano desde o início. Esse conceito teve diferentes sentidos ao longo do tempo, desde a soberania de Deus na época dos puritanos e de Jonathan Edwards, passando pelo Reino de Cristo na época dos avivamentos do século XIX, até o Reino terreno de Deus no liberalismo do início do século XX. Na visão dos liberais o RD é um reino de justiça e amor, já presentes aqui nessa terra, assim, o RD está presente em parte, mas a sua manifestação final permanece uma esperança para o futuro.                    O cristão sabe que o Reino veio num novo sentido em Cristo, que pode manifestar-se em sua própria vida, mas que ainda não veio plenamente. Desse modo, ele vive no mundo presente como um cidadão obediente desse Reino, ao mesmo tempo em que pede a Deus um futuro melhor: “Venha o teu reino”. Em sentido amplo, o Reino é um símbolo da vontade de Deus que pode ser realizada em situações particulares através da obediência e humildade, mas que nunca é plenamente concretizada dentro das fronteiras da história por causa das limitações humanas.

                        O RD trás a mensagem com uma tensão: como Cristo já veio ao mundo, morreu e ressuscitou, há uma dimensão presente do RD. Como Cristo ainda não voltou para pôr fim à realidade presente e instaurar os novos céus e terra, o RD é também futuro.

                        Em Jesus a lógica dualista “do dentro e do fora”, da imanência e da transcendência, do sagrado e do profano, é superada. A experiência da revelação depreendida das narrativas acerca de Jesus permite dizer acerca de Deus que o RD não “vem de fora”, para um receptor parado e distante, “trata-se exatamente do contrário; pois Deus já está sempre dentro, sustentando, promovendo e iluminando”. Nesse sentido a revelação, a experiência de Jesus dá testemunho, consiste em aperceber-se do Deus que como origem fundante está “já dentro”, habitando nosso ser e procurando se manifestar a nós. “Não se poderá dizer: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! “Pois eis que o Reino de Deus já está dentro de vós”.[4]

A missão do Cristo é o RD. Um RD que não se retém a nenhum grupo religioso, um RD é sempre excedente, com demandas que não comportam totalmente em si. O legado deixado por Cristo em sua ascensão tornou a Igreja a anunciadora do RD. A Igreja só pode fazer sua missão à luz do ES, com uma eclesiologia pneumatológica e cristológica ao mesmo tempo. A lógica do RD não é a quantidade de grupos, mas o espalhamento da mensagem, não que elas tenham que estar aqui, ou ali, é claro que é bom ficar aqui, unidos, mas pode ocorrer na expansão, na não fidelização. O RD nos contrapõe. O RD veio, e está aqui para nos desafiar a estabelecer relações novas, relação com Deus, relação com o homem, relação com o Cosmo, dando ao homem desumanizado uma chance de reumanização. Muitas Igrejas tentam arrumar liturgicamente o que não conseguem arrumar teologicamente, a Igreja tem que focar e redimensionar os valores reais da fé, deixando de sacrificar o RD no altar dos grandes grupos. O RD não respeita barreira denominacionais, banalizando vidas e pessoas. Os caminhos pelo deserto têm seus significados. O profeta Gentileza é o RD.[5]

 

                                   Em virtude dessa tensão existente no debate sobre o RD, por exemplo, a dimensão presente nesse Reino, o fato de que ele já veio ao Mundo morreu e ressuscitou, e também o fato de que ainda não voltou para o cumprimento pleno do RD, é importante considerarmos a abordagem que as escrituras fazem sobre a primeira vinda de Cristo. primeiramente com João Batista,

                        A abordagem do RD está ligada diretamente á Cristo, pois ele é o proclamador do RD, um RD para todos e em todos, um RD Universal que não necessita de outro mediador que seja o próprio Cristo encarnado, morto, ressuscitado, e hoje Vivo.

                        O texto bíblico descreve claramente a Kênosis[6] do Filho de Deus: “Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”. Filipenses 2.5:8

                        A vinda do Messias já era esperada por muitos, como está descrito no AT, muito se especulou sobre a primeira vinda de Cristo, inclusive profecias davam uma visão ampla de que um profeta viria para preparar o caminho para o Filho de Deus.

 

 



[1] Comentário referente ao texto bíblico de João 3.3-5 – o nascer de novo respondido por Jesus a Nicodemos.
[2] BRAKEMEIER, Gottfried. O Reino de Deus e esperança apocalíptica, p.40.
[3] CHAMPLIN, R. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, volume II, p.465
 
[4] ROCHA, Alessandro. Experiência e Discernimento, p.252
[5] ROCHA, Alessandro. Aula de pneumatologia na Disciplina de Teologia Sistemática III. 06/06/2012.
[6] Palavra grega que significa «esvaziamento». A teologia aplica o termo ao ato de Cristo, o Filho e Deus: ao tomar-se homem, o que significa que ele se esvaziou de seus atributos e poderes divinos, embora não de sua natureza divina. Exatamente até que ponto ocorreu esse esvaziamento é ponto disputado, como também como Cristo o fez. Todavia, não se pode chegar a uma resposta adequada, porque, ao tocarmos nessa questão, estamos abordando um dos grandes mistérios divinos. CHAMPLIN, enciclopédia de teologia de filosofia, p.764

terça-feira, 23 de outubro de 2012

EM BUSCA DE UMA LIBERDADE ALCANÇADA ATRAVÉS DA PRÁTICA DAS BOAS OBRAS

   
  Mas o que é a liberdade? É ter as mãos livres para fazer mal ao semelhante? Para infamar, para caluniar uma comunidade, uma família? Não! Isso seria o mal estabelecido. A liberdade tem de ser iluminada pelo coração que ama, respeitando-se a Justiça que provém de Deus. Isso é que é moral, justo! Todavia, para que essa concepção possa, na verdade, viver, edificando pessoas, um líder terá que procurar a compreensão do que seja realmente a Lei Divina. Compreensão essa que muitos líderes tentam encontrar, mas infelizmente não conseguem. Lutero em um de seus escritos fala de uma liberdade cristã, liberdade essa partilhada pela fé no Cristo, liberdade essa descrita também por Paulo em sua carta aos Coríntios: “Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos...” Ser cristão é ser escravo das boas obras, não para seu próprio benefício, mas sim para engrandecimento da obra de Deus, que é o único á ser adorado.  A liberdade de tudo o que escraviza faz com que lideres vivam a liberdade para o exercício da solidariedade e a prática da justiça. É a fé no Cristo que faz um líder receber a graça de poder também produzir frutos de gratidão e se tornar um líder livre e atuante em obras de amor. A vivência da fé na prática do amor como gesto de gratidão, livre e desinteressado, torna-se marca de um modelo de liderança de ser. O ser livre se dá na fé, no servir, no amor.
A liberdade é boa, mas trás com ela a responsabilidade, um modelo de liderança centrado no Cristo nos mostra uma liderança em busca de muitos desafios. Esse líder tem que buscar a sua espiritualidade no mais profundo extremo de Deus, passando por uma experiência única de fé, e consequentemente deixando-se transbordar de amor ao próximo. Visando não somente encher a igreja de “fieis”, encher a igreja de cristãos, mas sim também, encher a mesa dos que necessitam de alimento, dar sustento a quem tem fome, ajudar aos que não tem onde dormir, dar cobertor á quem tem frio,... Os lideres cristãos também podem exercitar a sua cidadania de forma livre sem a tutela eclesiástica, participando de movimentos sociais, entidades, organizações da sociedade civil, partidos políticos, vida parlamentar e administração pública, fazendo um diferencial nessas organizações. Essa mesma liberdade faz com líderes se incluam em grupos, movimentos e comunidades, participando de organismos ecumênicos e organizações inter-denominacionais com o fim de testemunhar em palavras e ações os valores do reino de Deus na sociedade e no mundo, a final, “o que estamos vivendo hoje, são escolhas de ontem, para mudar o amanhã algo deverá ser feito hoje. Não reclamando ou se preocupando do momento desfavorável porque eles viram com certeza, mas buscando o equilíbrio em Deus. Plante boas coisas, jogue sua semente na superfície, pois quando precisar de uma sombra, um alimento, uma flor... poderá encontra-lo”.
Assim, Lutero termina o seu texto sobre a liberdade cristã: “De tudo isso se conclui que um cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo; em Cristo por meio da fé, e no próximo por meio do amor; por meio da fé, ele ascende para Deus; de Deus, ele desce novamente por meio do amor, mas permanece sempre em Deus e no amor divino, conforme Cristo diz em João 1.51: ‘Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem’. Ora, é essa a verdadeira liberdade espiritual cristã que liberta o coração de todos os pecados, leis e mandamentos e que supera qualquer outra liberdade, tal como o céu supera a terra. Que Deus nos permita compreendê-la e conservá-la. Amém.
 Referência: Haroldo Segura C., Além da Utopia, Liderança Servidora e Espiritualidade Cristã
Artigo escrito para conclusão da disciplina Liderança Comunitária, Ms. Clemir Fernandes, do curso de Bacharel em Teologia, FATERJ/2012.1