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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Prefácio de Josefo*

           De todas as guerras que se travaram, quer de cidade contra cidade, quer de nação contra nação, o nosso século ainda não viu outra tão grande e não sabemos que tenha havido outra semelhante como a que os judeus sustentaram contra os romanos. Houve, no entanto, pessoas que se dispuseram a escrevê-la, embora por si mesmas dela nada soubessem, baseando os seus conhecimentos apenas em informações vãs e falsas. Quanto aos que nela tomaram parte, a sua bajulação aos romanos e o seu ódio pelos judeus os fez relatar as coisas de maneira muito diferente do que eram na realidade. Os seus escritos estão cheios de louvores a uns e censuras a outros, sem qualquer preocupação com a verdade. Foi isso o que me fez decidir escrever em grego, para satisfação daqueles que estão sujeitos ao Império Romano e para informar as outras nações, o que escrevi há pouco em minha língua.
            Meu pai chamava-se Matatias. Meu nome é Josefo, e sou hebreu de nasci­mento, sacerdote em Jerusalém. No princípio, combati contra os romanos, e a necessidade, por fim, me obrigou a empreender a carreira das armas.
           Quando essa grande guerra começou, o Império Romano era agitado por questões internas. Os judeus mais jovens e exaltados, confiando em suas rique­zas e em sua coragem, suscitaram tão grande perturbação no Oriente, para apro­veitar a ocasião, que povos inteiros tiveram receio de lhes ficar sujeitos, porque eles haviam chamado em seu auxílio os outros judeus que habitavam além do Eufrates, a fim de se revoltarem todos juntamente. Foi depois da morte de Nero que se viu mudar a face do império. A Gália, vizinha da Itália, sublevou-se. A Alemanha não estava tranqüila, e muitos aspiravam ao soberano poder. Os exér­citos desejavam a revolução, na esperança de com isso serem beneficiados mo-netariamente.
          Como todas essas coisas eram por demais importantes, a tristeza que senti ao ver que se desvirtuava a verdade fez-me tomar o cuidado de informar exatamente aos partos, aos babilônios, aos mais afastados entre os árabes, aos judeus que habitam além do Eufrates e aos atenienses acerca da causa dessa guerra, bem como de tudo o que se passou e de que modo ela chegou ao fim. E não posso ainda agora tolerar que os gregos e os romanos, que não estavam presentes, a ignorem e sejam engana­dos pela bajulação desses historiadores, que só lhes narram fábulas.
            Confesso não poder compreender a imprudência deles, quando, para fazer passar os romanos pelos primeiros de todos os homens, rebaixam os judeus. Será uma grande glória superar inimigos pouco temíveis? Ignoram eles as forças po­derosas empregadas pelos romanos nessa guerra, durante o tempo em que ela durou, e as dificuldades que suportaram? Não consideram eles que é diminuir o mérito extraordinário de seus generais minimizar a resistência que o valor dos judeus os fez experimentar na execução de tão difícil empreendimento?
            Evitarei bem imitá-los, revelando, além da verdade, os feitos dos de minha nação, tal como eles relataram os dos romanos. Farei justiça a uns e a outros, expondo os fatos sinceramente. Nada afirmarei que não possa provar e não pro­curarei outro alívio à minha dor senão deplorando a ruína de minha pátria ainda mais quando o próprio imperador Tito, que teve a direção de toda a guerra e dela fez referência como testemunha, reconheceu que as divisões domésticas foram a causa de nossa derrota e que não foi voluntariamente, mas por culpa daqueles que se haviam tornado os nossos tiranos, que os romanos incendiaram o nosso Templo. Esse grande príncipe não somente teve compaixão desse pobre povo, vendo-o correr para a sua própria ruína, pela violência daqueles facciosos, como também ele mesmo muitas vezes adiou a tomada da praça para lhes dar tempo e ocasião de se arrepender.
            Se alguém julgar que o meu ressentimento pela infelicidade de meu país me motivou, contra as leis da história, a acusar fortemente os responsáveis por ela, que acrescentaram ladroeira pública à sua tirania, devem perdoar-me e atribuí-lo à minha extrema aflição. E ela não poderia ser mais justa, pois entre tantas cida­des sujeitas ao Império Romano não se encontrará uma que, como a nossa, ten­do sido elevada a tão alto grau de honra e de glória, tenha caído em miséria tão espantosa que, creio eu, desde a criação do mundo jamais se presenciou algo semelhante. A isso, acrescente-se que não é a inimigos externos, mas a nós mes­mos, que devemos atribuir as nossas desgraças. Assim, como me poderei conter em tamanha dor? No entanto, ainda que algumas pessoas não se deixem como­ver por essa consideração e desejem condenar com rigor um sentimento que me parece tão razoável, elas poderão ater-se à minha história somente nas coisas que refiro, sem se incomodar com as minhas queixas, admitindo-as apenas como uma efusão da alma do historiador.
           Confesso que muitas vezes censurei com razão, parece-me os mais eloqüentes gregos porque, embora as coisas acontecidas no seu tempo sobrepu­jem em muito as dos séculos que os precederam, eles contentam-se em julgá-las sem nada escrever e em censurar os que as escreveram, sem considerar que, se estes lhes são inferiores em capacidade, têm sobre eles a vantagem de haver servido o bem público com o seu trabalho. Esses mesmos censores dos outros escrevem o que se passou entre os sírios e os medos como tendo sido mal narra­do pelos antigos escritores, embora estes não lhes sejam menos inferiores na maneira de bem escrever que no intento que tiveram ao fazê-lo, pois só referi­ram e quiseram referir as coisas de que tinham conhecimento e teriam tido ver­gonha de falsear a verdade.
           Assim, não poderíamos deixar de louvá-los após terem dado à posteridade o conhecimento do que se passou no seu tempo, que ainda não havia aparecido em público. Eles devem ser tidos como os mais hábeis, pois, em vez de trabalhar sobre as obras de outros, trocando somente a ordem, escrevem coisas novas e compõem um corpo de história que somente a eles se deve. Por mim, posso dizer que, sendo estrangeiro, não houve despesa que eu não fizesse nem cuida­do que não tomasse para informar os gregos e os romanos de tudo o que se refere à nossa nação. Os gregos, ao contrário, falam muito quando se trata de sustentar os seus interesses, quer em particular, quer perante os juizes, mas se calam quando é preciso reunir com muita dificuldade tudo o que é necessário para compor uma história verdadeira e não acham estranho que aqueles que nenhum conhecimento têm dos feitos dos príncipes e dos grandes generais e são incapazes de os descrever ousem fazê-lo. Isso mostra que nós procuramos a verdade da história tanto quanto os gregos a desprezam e disso se descuidam.
            Eu teria podido dizer qual foi a origem dos judeus, de que maneira saíram do Egito, por quais províncias vagaram durante longo tempo, as que ocuparam e como passaram a outras. Mas, além do fato de que isso não se refere a este tempo, eu o julgaria inútil, pois vários de meus compatriotas já o escreveram, com muito cuidado, e os gregos traduziram essas obras para a sua língua sem se afastar muito da verdade. Assim, começarei a minha história por onde os seus autores e os nossos profetas concluíram as suas. Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei em tocar brevemente o que se passou nos séculos precedentes.
            Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de tomar Jerusalém e de tê-la possuído durante três anos e meio, de lá foi expulso pelos filhos de Matatias, hasmoneu; como a divisão suscitada entre os seus sucessores, com relação à posse do reino, atraiu os romanos sob o comando de Pompeu; como Herodes, filho de Antípatro, com o auxílio de Sósio, general do exército ro­mano, pôs fim à dominação dos príncipes hasmoneus; como, depois da mor­te de Herodes, sob o reinado de Augusto, sendo Quintílio Varo governador da Judéia, o povo se revoltou; como, no décimo segundo ano do reinado de Nero, começou a guerra, que se deu sob Céstio, que comandava as tropas romanas; quais foram os primeiros feitos dos judeus e as praças que eles for­tificaram; como as perdas sofridas em várias ocasiões por Céstio fizeram Nero temer pelo êxito de suas armas, entregando-as a Vespasiano; como esse ge­neral, acompanhado pelo mais velho de seus filhos, entrou na judéia com um grande exército romano; como um grande número de suas tropas auxiliares foi desbaratada na Galileia; como ele tomou algumas cidades dessa província e outras, que se entregaram a ele.
            Referirei também, sinceramente e segundo o que presenciei e constatei com os meus próprios olhos, o proceder dos romanos em suas guerras, a sua ordem e a sua disciplina; a extensão e a natureza da Alta e da Baixa Galileia; os limites e as fronteiras da judéia, a qualidade da terra, os lagos e as fontes que aí se encon­tram; e os males suportados pelas cidades que foram tomadas. Não deixarei de mencionar, do mesmo modo, as calamidades que eu mesmo experimentei em minha vida e que são bem conhecidas.
            Direi também como a morte de Nero aconteceu, estando já em péssimo estado os interesses dos judeus e os do império; como Vespasiano, que se apressava para marchar contra Jerusalém, foi chamado a Roma; os presságios que ele teve de sua futura grandeza; as mudanças sucedidas na capital do império; como ele, contra a sua vontade, foi declarado imperador pelos soldados e como foi ao Egito dar as ordens necessárias; como a judéia foi agitada por novas perturbações; como surgi­ram tiranos uns contra os outros; como Tito, à sua volta do Egito, entrou duas vezes naquela província; como e em que lugar ele reuniu o seu exército; como e quantas vezes ele próprio testemunhou as sedições que se sucederam em Jerusa­lém; suas aproximações e todas as dificuldades que enfrentou para atacar essa praça; qual era a torre dos muros da cidade, a sua fortificação e a do Templo; a descrição do Templo, as suas medidas e as do altar nisso nada omitirei.
           Falarei das nossas festas solenes, das cerimônias que nelas se observam, das sete espécies de purificação; das funções dos sacerdotes, de seus hábitos e dos do sumo sacerdote; e da santidade do Templo, sem nada deturpar ou acrescen­tar. Farei ver também a crueldade de nossos tiranos contra os de sua própria nação e a humanidade dos romanos para conosco, sendo que éramos estrangei­ros com relação a eles. Mostrarei também quantas vezes Tito se esforçou para salvar a cidade e o Templo e reunir os que estavam tão obstinadamente dividi­dos. Falarei dos muitos e diversos males suportados pelo povo, o qual, depois de sofrer todas as misérias que a guerra, a carestia e as sedições podem causar, ainda se viu reduzido à servidão, pela tomada dessa grande e poderosa cidade.
           Não me esquecerei também de dizer em que desgraças caíram os desertores da nação, a maneira como o Templo foi queimado, contra a vontade de Tito, a quantidade de riquezas consagradas a Deus que o fogo destruiu, bem como a destruição completa da cidade, os prodígios que precederam essa extrema deso­lação, a escravidão de nossos tiranos, o grande número daqueles que foram leva­dos cativos e as suas diversas vicissitudes. Direi ainda a maneira como os roma­nos perseguiram os que escaparam da guerra e como, depois de os vencer, des­truíram completamente as praças e os lugares para onde eles se haviam retirado. Por fim, falarei da visita feita por Tito a toda a província para restabelecer a or­dem e de sua volta à Itália e de seu triunfo. Escreverei todas essas coisas em sete livros, divididos em capítulos, para satisfação das pessoas que amam a verdade, e não tenho motivo para temer que aqueles que tiveram a direção dessa guerra ou que lá se encontraram presentes me acusem de haver faltado à sinceridade. Mas é tempo de começarmos a executar o que prometi.

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        Flávio Josefo foi um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.C. Seu pai era sacerdote, e sua mãe descen­dia da casa real hasmoneana. Portanto, Josefo era de sangue real. Ele foi muito bem instruído nas culturas judaica e grega. Falava perfeitamente o latim o idioma do Império Romano e também o grego. Logo cedo, demonstrou intenso zelo religioso, filiando-se ao grupo religioso dos fariseus. Durante toda a sua vida, a sua terra e o seu povo estiveram sob o domínio romano.
       Em 66 d.C, irrompeu uma revolta dos judeus contra os romanos, e josefo foi enviado para dirigir as operações contra os dominadores, na turbulenta Galileia. Aí ele logrou algumas vitórias, mas logo foi derrotado, rendendo-se ao exército romano. Finda a guerra, foi conduzido a Roma, onde lhe conferi­ram a cidadania romana e também uma pensão do Estado, época em que lhe foi dado o nome romano de Flávio. Ele viveu em Roma até o fim de sua vida, escrevendo a obra que atravessaria os séculos e chegaria até nós. Depois da Bíblia, é a maior fonte de informações sobre os impérios da Antigüidade, o povo judeu e o Império Romano.
        As obras de Josefo vêm sendo preservadas e divulgadas pela Igreja cristã, uma vez que os judeus até hoje consideram josefo um oportunista, devido ao seu relacionamento com os romanos.
        Qualquer estudante da Bíblia encontrará em Flávio Josefo descrições mi­nuciosas de personagens dos Evangelhos e de Atos do Apóstolos, tais como Pilatos, os Agripas e os Herodes. A história desses personagens e inúmeros pormenores do mundo greco-romano, relatados nesta obra, receberam sur­preendente confirmação com as recentes descobertas de Qunram e Massada, em Israel, as quais conferiram aos relatos de Josefo uma credibilidade ainda maior.
*Extraído do Livro de Flávio Josefo, Histórias do Hebreus, De Abraão á Queda de Jerusalém, CPAD,8ed.,2004

sexta-feira, 29 de março de 2013

1.3 A História da Morte de Jesus*


                        Jesus ou Barrabás? Lemos que o criminoso Barrabás, já preso por sedição e homicídio, foi solto. Mas que Jesus, inocente de qualquer acusação, foi entregue ao cruel castigo de açoites.

                        É incrível como a natureza humana, representada naquele momento pelas autoridades judaicas e pela multidão de judeus que se tinham reunido diante do palácio do governador, se voltou tão ferozmente contra o seu próprio Criador. Em altos brados eles exigiram a soltura de Barrabás e a crucificação de Jesus. Pilatos procurou eximir-se de sua responsabilidade lavando as mãos diante do povo, como que a dizer: “Estou livre do sangue deste inocente” [1].

                        Alguns textos atestam isso: Mateus 27.45: E, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona”.

“‘E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é a vossa fé’, diz Paulo em 1 Cor.15.14. Se a Cruz de Jesus é chamada de ‘fato-central’ da fé cristã, então sua ressurreição deve ser chamada de data primordial da fé cristã”, diz Jürgen Moltmann em O Deus crucificado[2].

 

       Cristo nasceu para também revisar a instituição do sacrifício, na narrativa dos evangelhos não há um momento que ele mande ou faça sacrifícios, em nenhuma de suas pregações há sacrifício. Jesus assume a Redenção nEle mesmo, na Graça que custa a sua própria vida. Corrigir a expressão “Ele morreu para nos salvar”, para “ele viveu para nos salvar”. Não só a morte, mas a sua vida inteira é salvífica. A morte é a erradicação desse ser de Jesus. A morte é necessária porque Jesus anuncia o RD, e não é acolhido, e esse não acolhimento se transforma numa perseguição. Ninguém tira a vida, e sim dá a vida. Não morrer seria renunciar a salvação. Salvação é outro modo de existir. Jesus já nos salva na encarnação e continua nos salvando na pregação. Sua morte é salvífica e sua vida inteira é alcançada na redenção, reintegrando a vida no plano divino. O Deus que vem é o mesmo que vai, levando a realidade na própria pessoa humana. Salvação é vida e não morte, e vida gera vida. Jesus ressuscitou, nossa pregação é vã se isso não aconteceu[3].

 

                        Jesus sofreu e morreu, no evangelho de Mateus está relatada a hora do evento divino: “e, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona”. Esse é apenas um espaço curto de tempo, pelo qual Jesus se submeteu naquela semana Pascal, que pela hora o Sol deveria estár raiando na imensidão celeste, mas não foi isso que aconteceu, naquele momento a escuridão sobrenatural tomou conta do Céu azul.

                        A morte de Cristo é a trama que dá estrutura ao relato do evangelho. Os quatro autores dos evangelhos, cada um a seu modo, contam a história da paixão de Jesus, seu sofrimento e morte, e depois acrescentam uma introdução ampliada.

                        Jesus morreu. Não há como evitar esse fato fundamental. E, de uma forma ou de outra, eu também vou morrer. Não há como evitar esse fato igualmente fundamental. Nessa conjunção de mortes, a de Jesus e a minha, é onde começo a receber a salvação. Paulo condensa toda a operação de Deus em nossa vida nas seguintes palavras, e mais nada: "Jesus Cristo é este crucificado" (1 Co 2.2), o até então futuro apóstolo Paulo participa dessa crucificação(Gl 2.19-20).

                        Nada no relato sobre Jesus poderia ser mais claro ou apresentado de modo mais inequívoco do que isto: que Jesus escolheu o caminho do sofrimento e da morte; que ele o fez em continuidade com toda a história do povo de Deus antes dele; e que esse sofrimento e essa morte foram querigmáticos. O sofrimento, o pior que a vida pode nos oferecer, é a substância da qual nossa salvação é formada.

                        A morte de Jesus é uma morte sofrida em fidelidade a sua vocação. Não é simplesmente o destino de morrer que dá valor ao sacrifício da morte de Jesus, mas também a questão da vida como sublime forma de aceitação de sua vocação, dando uma cosmovisão da vida maravilhosamente ativa para o RD que Jesus viveu.

                        A história da morte de Jesus, conforme relatada por Marcos, é uma sequência dramática. Duas frases introduzem esse drama. O tempo é definido claramente: dois dias antes da Páscoa, quando milhares de cordeiros estão sendo abatidos para a festa anual. É a celebração ritual da salvação do Êxodo, o acontecimento definidor da história judaica. Nesse momento, os líderes religiosos estão à caça de Jesus. A morte paira no ar. Aquele que veio para dar Vida aos homens, estava prestes á ser morto. Somente a crucificação de Cristo, o homem perdido tem a chance de uma nova vida.

 

“Os crentes já não vivem mais apenas nesse mundo perdido e dominado pela morte. Nele, o futuro do novo mundo da vida já se  apoderou deste mundo perdido e dominado pela morte, o condenando a ser um mundo que passa. Por isso mediante a fé no Jesus ressuscitado, vivemos no meio de um passageiro mundo de morte, mas pelas novas forças do novo mundo de vida que já irrompeu nele” [4].

 

                        Cristo venceu a morte, porque Ele também tem poder sobre a morte. Assim como na introdução de Apocalipse, Paulo chama Cristo de o primogênito de toda a criação e o primogênito dos mortos, especificamente referindo-se à sua soberania sobre a criação e a morte. Jesus havia ressuscitado outras pessoas dos mortos, mas é Jesus quem se mostrou vitorioso sobre a morte. O termo “primogênito” reflete a noção hebraica de o primogênito ser dado um lugar de importância especial[5].

 

Não está mais de acordo com o Novo Testamento afirmar que com Cristo começa a escatologia e a nova ordem, que ele é uma chave hermenêutica para descobrir Deus na nossa história? Cristo mesmo, que é a Palavra do Pai (Jo 1.18 diz magnificamente a respeito do Logos= Palavra que o Pai revelou = exegésato), não disse tudo. Deixou seu Espírito para que nos ensinasse (Jo 14.26) e nos conduzisse à verdade plena (Jo. 16.13 hodegései humas en te alethéia pase). A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífica, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou[6].

                       

                        Crucificado de forma errada, e ao mesmo tempo Glorificado. Jesus é o RD. Quando Jesus é ressuscitado junto dele vem sua vida inteira e não somente seu caráter. A ressurreição é a coroa da vida fundamental, Jesus foi fiel até a morte. A salvação é exclusivamente em Jesus, no sentido amplo em fazer dos homens discípulos, seguidores de Jesus, seguidores não de um ser inanimado, mas sim, de um ser vivo, presente, real.

                        Com a ressurreição de Jesus Cristo se inicia a promessa e a abertura para o futuro. A ressurreição é prolepse do que será o futuro, mas o futuro não se esgota com a ressurreição, mas antes, confirma antecipadamente a promessa da glória e do senhorio do futuro RD.

                        O apóstolo Lucas descreve o momento pós-ressurreição diferente dos outros sinóticos:

 

O livro de Lucas apresenta uma narrativa diferente da ressurreição de Cristo. Todos os escritores mencionam a visita das mulheres à sepultura; mas o aparecimento do Senhor aos discípulos a caminho de Emaús só é contado por Lucas. Ele fornece três episódios principais da Ressurreição: a anunciação às mulheres, a caminhada para Emaús, e o aparecimento no cenáculo. Ele conclui o Evangelho com a ascensão em Betânia[7].

 

                        Vivemos em uma era pluralista, não somente social, mas também teológica, onde é apresentada uma diversidade infinita de interpretações bíblicas. A intenção não é mostrar qual evangelho está correto em sua escrita, e sim, mostrar essa inclusão que o evangelho de Lucas, escrito por um homem amoroso e detalhista, dá as classes menos favorecidas de gentios excluídos da época de Jesus, dando-lhes uma visão abrangente de que Cristo veio para judeus e não judeus. Croatto escreveu: “Aqueles que sofrem devem esperar que os que estão bem lhes expliquem o sentido da mensagem de libertação da palavra de Deus? A questão da ‘apropriação’ do sentido também se coloca neste caso”[8]. Mulheres, crianças, enfermos, pobres, gentios, prostitutas etc., esses eram os sofredores da época de Jesus.

 

Esta abertura para o futuro começa com o comissionamento apostólico da Igreja Primitiva e as aparições do Cristo ressuscitado. Essas aparições: “só é compreensível se o próprio Jesus ressuscitado ainda tem um futuro, um futuro universal em favor dos povos da terra” [9].

 

                        O Deus que se faz conhecer em Jesus é o que cura os cegos, faz andar os coxos, acolhe os pecadores, dá pão aos famintos, põe o homem acima do sábado, anuncia o RD, e não o de César. A teologia lucana é uma teologia inclusivista, mostrando que a linguagem do amor de Deus é universal, e a salvação é um desejo de Deus para a humanidade inteira. O Messias Judeu é o salvador de todos os povos e nações. Jesus rompe a Lei para incluir aqueles que estão fora da Lei.

                        O panorama textual descrito nesse capítulo expressa que o Dia do Senhor já aconteceu através de Jesus Cristo encarnado, na sua primeira vinda ao Mundo.

 *ESSE TEXTO É UMA PEQUENA PARTE DO MINHA MONOGRAFIA FEITA PARA O CURSO DE BAXAREL EM TEOLOGIA PELA FAECAD, CUJO TEMA FOI:
 


O DIA DO SENHOR
UM OLHAR PRESENTE E ESCATOLÓGICO DO DIA DO SENHOR EM PARALELO COM A CHEGADA DO REINO DE DEUS



[1]  CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Volume III. P.709
[2] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.201.
[3] Aula do dia 04/04/2012, Professor Doutor Alessandro Rocha, Disciplina Sistemática III, FATERJ, 19:00hrs.
[4] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.213.
[5] MOODY, 571, citando Éxodo 4.22, Jeremias 31.9 e Salmo 89.27.
[6] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.51.
[7] MODDY. Lucas, p.105.
[8] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.43.
[9] MOLTMANN, J. Teologia da Esperança, p.100.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ELE VENCEU A MORTE

A história da morte de Jesus, conforme relatada por Marcos, é uma sequência dramática. Duas frases introduzem esse drama. O tempo é definido claramente: dois dias antes da Páscoa, quando milhares de cordeiros estão sendo abatidos para a festa anual determinada á partir da saida do povo Hebreu do Egito. É a celebração ritual da salvação do Êxodo, o acontecimento mas aguardado da história judaica. Nesse momento, os líderes religiosos estão à caça de Jesus. A morte se faz presente no ar. Aquele que veio para dar Vida aos homens, estava prestes á ser morto. Somente a crucificação de Cristo, o homem perdido tem a chance de uma nova vida.

“Os crentes já não vivem mais apenas nesse mundo perdido e dominado pela morte. Nele, o futuro do novo mundo da vida já se  apoderou deste mundo perdido e dominado pela morte, o condenando a ser um mundo que passa. Por isso mediante a fé no Jesus ressuscitado, vivemos no meio de um passageiro mundo de morte, mas pelas novas forças do novo mundo de vida que já irrompeu nele” [1].

                        Cristo venceu a morte, porque Ele também tem poder sobre a morte. Assim como na introdução de Apocalipse, Paulo chama Cristo de o primogênito de toda a criação e o primogênito dos mortos, especificamente referindo-se à sua soberania sobre a criação e a morte. Jesus havia ressuscitado outras pessoas dos mortos, mas é Jesus quem se mostrou vitorioso sobre a morte. O termo “primogênito” reflete a noção hebraica de o primogênito ser dado um lugar de importância especial[2].

Não está mais de acordo com o Novo Testamento afirmar que com Cristo começa a escatologia e a nova ordem, que ele é uma chave hermenêutica para descobrir Deus na nossa história? Cristo mesmo, que é a Palavra do Pai (Jo 1.18 diz magnificamente a respeito do Logos= Palavra que o Pai revelou = exegésato), não disse tudo. Deixou seu Espírito para que nos ensinasse (Jo 14.26) e nos conduzisse à verdade plena (Jo. 16.13 hodegései humas en te alethéia pase). A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífica, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou[3].
         

                        Crucificado de forma errada, e ao mesmo tempo Glorificado. Jesus é o RD. Quando Jesus é ressuscitado junto dele vem sua vida inteira e não somente seu caráter. A ressurreição é a coroa da vida fundamental, Jesus foi fiel até a morte. A salvação é exclusivamente em Jesus, no sentido amplo em fazer dos homens discípulos, seguidores de Jesus, seguidores não de um ser inanimado, mas sim, de um ser vivo, presente, real.

                        Com a ressurreição de Jesus Cristo se inicia a promessa e a abertura para o futuro. A ressurreição é prolepse do que será o futuro, mas o futuro não se esgota com a ressurreição, mas antes, confirma antecipadamente a promessa da glória e do senhorio do futuro RD.

                        O apóstolo Lucas descreve o momento pós-ressurreição diferente dos outros sinóticos:


O livro de Lucas apresenta uma narrativa diferente da ressurreição de Cristo. Todos os escritores mencionam a visita das mulheres à sepultura; mas o aparecimento do Senhor aos discípulos a caminho de Emaús só é contado por Lucas. Ele fornece três episódios principais da Ressurreição: a anunciação às mulheres, a caminhada para Emaús, e o aparecimento no cenáculo. Ele conclui o Evangelho com a ascensão em Betânia[4].

                        Vivemos em uma era pluralista, não somente social, mas também teológica, onde é apresentada uma diversidade infinita de interpretações bíblicas. A intenção não é mostrar qual evangelho está correto em sua escrita, e sim, mostrar essa inclusão que o evangelho de Lucas, escrito por um homem amoroso e detalhista, dá as classes menos favorecidas de gentios excluídos da época de Jesus, dando-lhes uma visão abrangente de que Cristo veio para judeus e não judeus. Croatto escreveu: “Aqueles que sofrem devem esperar que os que estão bem lhes expliquem o sentido da mensagem de libertação da palavra de Deus? A questão da ‘apropriação’ do sentido também se coloca neste caso”[5]. Mulheres, crianças, enfermos, pobres, gentios, prostitutas etc., esses eram os sofredores da época de Jesus.
 
Esta abertura para o futuro começa com o comissionamento apostólico da Igreja Primitiva e as aparições do Cristo ressuscitado. Essas aparições: “só é compreensível se o próprio Jesus ressuscitado ainda tem um futuro, um futuro universal em favor dos povos da terra” [6].

                        O Deus que se faz conhecer em Jesus é o que cura os cegos, faz andar os coxos, acolhe os pecadores, dá pão aos famintos, põe o homem acima do sábado, anuncia o RD, e não o de César. A teologia lucana é uma teologia inclusivista, mostrando que a linguagem do amor de Deus é universal, e a salvação é um desejo de Deus para a humanidade inteira. O Messias Judeu é o salvador de todos os povos e nações. Jesus rompe a Lei para incluir aqueles que estão fora da Lei.



[1] MOLTMANN, J. O Deus Crucificado, 2011, p.213.
[2] MOODY, 571, citando Éxodo 4.22, Jeremias 31.9 e Salmo 89.27.
[3] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.51.
[4] MODDY. Lucas, p.105.
[5] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica, p.43.
[6] MOLTMANN, J. Teologia da Esperança, p.100.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O “Já” e o “Ainda Não”

O mundo está em uma caminhada histórica e contínua, rumo à consumação final. O tempo, denominado pelo profeta, "o grande e terrível dia", é usualmente, intitulado o dia do Senhor, nas Escrituras. O espaço da criação do homem sobre a terra, até o fim de todas as coisas, é o dia dos filhos dos homens; o tempo que está agora passando sobre nós é propriamente nosso dia; quando este acabar, o dia do Senhor plenamente começará com o RD plenamente estabelecido. Mas quem pode dizer por quanto tempo ele continuará? Visto que para "o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia?" (2 Pedro 3.8) E, desta mesma expressão, alguns dos antepassados esboçaram aquela inferência, aquele, que é comumente chamado o dia do julgamento, seria, de fato, mil anos; e parece que eles não foram além da verdade; mais do que isto: provavelmente eles não avançaram para ela. Porque, se nós considerarmos o número de pessoas que serão julgadas, e as ações que serão inquiridas nisto, não parece que mil anos serão suficientes para as transações daquele dia; de maneira que não pode ser improvável abranger diversos mil anos. Mas Deus deverá revelar isto também há seu tempo, somente há seu tempo.

Se o nosso Deus reina eternamente e reinará para sempre, falaremos, “neste sentido, de uma escatologia perfeita, de uma escatologia presente e de uma escatologia futura, bem como de uma escatologia que poderíamos chamar de transcendental, enquanto está se referindo ao agir do Deus eterno dentro, aquém e além de todos os tempos escatológicos” [1]. A escatologia perfeita, para Claus Schwambach, é a irrupção da eternidade para dentro do tempo, da presença da salvação escatológica na pessoa e na obra de Cristo em sua primeira vinda ao Mundo. A escatologia presente é apresentada como o Evangelho que anuncia o perdão, ela manifesta agora, de forma antecipada, o veredito de Deus como Juiz final. A palavra da cruz atualiza tanto o passado como o futuro, dando-nos validade no presente. A escatologia futura tem como conteúdo a esperança cristã da ressurreição, o arrebatamento, a segunda vinda de Cristo, o juízo final, o fim do mundo, a nova criação, céu e inferno, e enfim, a vitória final.“[...] quando ele entregar o reino a Deus, o Pai, quando houver destruído todo domínio, toda autoridade e todo poder. Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés” (1Co 15.24,25)[2].

 

Segundo Mateus 4.17, o “reino de Deus não tem significado estritamente temporal. Ele expressa dinamicidade, atividade e está sempre orientado teocraticamente” [3]:Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”.

                        O grande problema deste ensinamento de Cristo que o RD está perto, é que tem sido quase dois mil anos desde que ele ensinou isso. Assim aparece que não tem sentido real em que o Reino podia ter sido “perto” no momento que ele viveu. Os comentaristas conservadores dizem que a palavra “perto” refere-se ao fato que o Reino foi “imanente,” e isto podia acontecer em qualquer momento. Mas então, não seria uma mensagem excitada. Ostensivamente, o Reino podia vir em qualquer momento de 1.000 (mil) anos, dias, semanas, qualquer período.

                        Alguns teólogos declaram que o Reino estava “perto” porque o Cristo estava lá pessoalmente, mas esta explicação pode ser uma explicação forçada. Cristo não disse que “o Rei” estava perto. Ele disse que “o Reino está perto,” e o que queria dizer aos seus ouvintes que todas as promessas acerca do Reino no AT serão cumpridas.

                        O controle do homem sobre o tempo é restrito e inseguro, a humanidade vive na inquietação acerca do tempo final. Na virada do milênio todo mundo viveu sob o temor pela tensão do que poderia acontecer. Nem a vida Moderna em sua época mais avançada na ciência e na tecnologia, em que o homem se põe no centro do universo exibindo seu domínio sobre a criação, foi capaz de não deixar-se apavorar pela expectativa do fim do mundo. A incerteza quanto ao tempo escatológico apavora tanto os mais ignorantes como os mais intelectuais, tanto os religiosos como os ateus.

                        A monarquia teocrática relacionada na Bíblia não alcançou a legitimidade dentre as dinastias, tendo apenas algumas sinalizações no reinado de Davi e Salomão, evidenciou-se o contraste entre aquilo que era e aquilo que deveria ser, renovando, assim a esperança escatológica.

Logicamente, não se duvida que Deus seja Rei, mas a concretização de sua realeza torna-se objeto de esperança. Em outros termos, a “teocracia” é aguardada no futuro, ela passa a ser escatológica[4].

           

                                Somando Cristo ao Dia do Senhor e o RD, também podemos acrescentar á essas somas o RD estabelecido no mover do ES no Dia de Pentecostes, dando á Era eclesiástica uma grande missão que é proclamar o evangelho de Cristo a todas as nações. Como, porém, se arrependerão se não ouvirem do seu perdão? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Com esse desafio, Pedro fala que devemos esperar e apressar a vinda plena do RD (2 Pe 3.12).

                        Todo cristão tem como desafio, pregar as boas-novas a cada criatura, e fazer discípulos de todas as nações! O cristão tem o grande privilégio e a grande responsabilidade de apressar a segunda vinda de Cristo. Por esse motivo a Igreja deve assumir o compromisso da obediência missionária e cumprir a sua missão de evangelização mundial. Além de anunciar o RD, e revelar os seus mistérios, Jesus incumbiu os seus discípulos de fazerem o mesmo; a igreja primitiva fez isso. O "Já" em Cristo agora e aqui é que determina o "amanhã" com Ele no porvir do além. Em sentido espiritual o Cristão já habita o Céu: "E juntamente com ele (Jesus) nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus".

 



[1] SCHWAMBACH, C. Escatologia. Apostila do Curso Avançado em Teologia e Bíblia. Faculdade Luterana de Teologia do CETEOL, São Bento do Sul, 2001, p.3.
[2] NEUTZLING, I. S. J. O Reino de Deus e os pobres, Loyola, São Paulo, 1986, p.50.
[3] Ibid.
[4] BRAKEMEIER, G. O Reino de Deus e esperança Apocalíptica, p.26.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A PRIMEIRA VINDA DE JESUS CRISTO, A PAROUSIA, COMO ANUNCIO DA CHEGADA DO “REINO DE DEUS”


                        Antes de abordarmos um cumprimento do plano de Deus por meio de Jesus Cristo em sua primeira vinda se faz necessário resgatar brevemente algumas considerações sobre o reino de Deus.

                        A pregação do Reino é o tema central dos evangelhos sinópticos. O Reino de Deus foi uma oferta feita ao povo de Israel, através de Cristo, porém, eles o rejeitaram. No quarto livro do NT, o evangelho de João, o RD representa salvação, vida eterna. Alguns historiadores dizem que o contexto da escrita de João condiz com um período em que os homens estão desacreditados neste mundo.[1]

Nos dias de Jesus, ao longo da história da igreja, o RD tem sido objeto de diferentes entendimentos. Orígenes afirmou que o próprio Jesus era o Reino; alguns entendem que o Reino se refere a um relacionamento apropriado com Deus; outros o têm identificado com a igreja visível ou com uma ordem social transformada; ainda outros têm insistido que Jesus se referia a uma intervenção apocalíptica da parte de Deus.

“Para os homens, a vinda escatológica de Deus significa o juízo e a salvação. Para Deus, ela equivale à manifestação da sua glória, ou de seu Nome e à instauração do seu Reino”.[2]

 

O Reino. Esse é um assunto extremamente complexo. Nos evangelhos sinópticos encontramos o reino político. Israel será restaurado, tendo o Messias como seu cabeça. Mas isso também inclui a idéia do reino entre os homens, porque o Rei estará entre eles. No evangelho de João, porém, o reino é um sinônimo virtual da salvação ou vida eterna, o que significa que esse conceito é ali totalmente espiritualizado. Em Romanos 14.17, o reino é um sinônimo virtual da atual espiritualidade cristã.[3]

 

                       

Em seu livro O Reino de Deus na América (1937), H. Richard Niebuhr demonstrou que o tema do RD dominou o pensamento teológico americano desde o início. Esse conceito teve diferentes sentidos ao longo do tempo, desde a soberania de Deus na época dos puritanos e de Jonathan Edwards, passando pelo Reino de Cristo na época dos avivamentos do século XIX, até o Reino terreno de Deus no liberalismo do início do século XX. Na visão dos liberais o RD é um reino de justiça e amor, já presentes aqui nessa terra, assim, o RD está presente em parte, mas a sua manifestação final permanece uma esperança para o futuro.                    O cristão sabe que o Reino veio num novo sentido em Cristo, que pode manifestar-se em sua própria vida, mas que ainda não veio plenamente. Desse modo, ele vive no mundo presente como um cidadão obediente desse Reino, ao mesmo tempo em que pede a Deus um futuro melhor: “Venha o teu reino”. Em sentido amplo, o Reino é um símbolo da vontade de Deus que pode ser realizada em situações particulares através da obediência e humildade, mas que nunca é plenamente concretizada dentro das fronteiras da história por causa das limitações humanas.

                        O RD trás a mensagem com uma tensão: como Cristo já veio ao mundo, morreu e ressuscitou, há uma dimensão presente do RD. Como Cristo ainda não voltou para pôr fim à realidade presente e instaurar os novos céus e terra, o RD é também futuro.

                        Em Jesus a lógica dualista “do dentro e do fora”, da imanência e da transcendência, do sagrado e do profano, é superada. A experiência da revelação depreendida das narrativas acerca de Jesus permite dizer acerca de Deus que o RD não “vem de fora”, para um receptor parado e distante, “trata-se exatamente do contrário; pois Deus já está sempre dentro, sustentando, promovendo e iluminando”. Nesse sentido a revelação, a experiência de Jesus dá testemunho, consiste em aperceber-se do Deus que como origem fundante está “já dentro”, habitando nosso ser e procurando se manifestar a nós. “Não se poderá dizer: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! “Pois eis que o Reino de Deus já está dentro de vós”.[4]

A missão do Cristo é o RD. Um RD que não se retém a nenhum grupo religioso, um RD é sempre excedente, com demandas que não comportam totalmente em si. O legado deixado por Cristo em sua ascensão tornou a Igreja a anunciadora do RD. A Igreja só pode fazer sua missão à luz do ES, com uma eclesiologia pneumatológica e cristológica ao mesmo tempo. A lógica do RD não é a quantidade de grupos, mas o espalhamento da mensagem, não que elas tenham que estar aqui, ou ali, é claro que é bom ficar aqui, unidos, mas pode ocorrer na expansão, na não fidelização. O RD nos contrapõe. O RD veio, e está aqui para nos desafiar a estabelecer relações novas, relação com Deus, relação com o homem, relação com o Cosmo, dando ao homem desumanizado uma chance de reumanização. Muitas Igrejas tentam arrumar liturgicamente o que não conseguem arrumar teologicamente, a Igreja tem que focar e redimensionar os valores reais da fé, deixando de sacrificar o RD no altar dos grandes grupos. O RD não respeita barreira denominacionais, banalizando vidas e pessoas. Os caminhos pelo deserto têm seus significados. O profeta Gentileza é o RD.[5]

 

                                   Em virtude dessa tensão existente no debate sobre o RD, por exemplo, a dimensão presente nesse Reino, o fato de que ele já veio ao Mundo morreu e ressuscitou, e também o fato de que ainda não voltou para o cumprimento pleno do RD, é importante considerarmos a abordagem que as escrituras fazem sobre a primeira vinda de Cristo. primeiramente com João Batista,

                        A abordagem do RD está ligada diretamente á Cristo, pois ele é o proclamador do RD, um RD para todos e em todos, um RD Universal que não necessita de outro mediador que seja o próprio Cristo encarnado, morto, ressuscitado, e hoje Vivo.

                        O texto bíblico descreve claramente a Kênosis[6] do Filho de Deus: “Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”. Filipenses 2.5:8

                        A vinda do Messias já era esperada por muitos, como está descrito no AT, muito se especulou sobre a primeira vinda de Cristo, inclusive profecias davam uma visão ampla de que um profeta viria para preparar o caminho para o Filho de Deus.

 

 



[1] Comentário referente ao texto bíblico de João 3.3-5 – o nascer de novo respondido por Jesus a Nicodemos.
[2] BRAKEMEIER, Gottfried. O Reino de Deus e esperança apocalíptica, p.40.
[3] CHAMPLIN, R. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, volume II, p.465
 
[4] ROCHA, Alessandro. Experiência e Discernimento, p.252
[5] ROCHA, Alessandro. Aula de pneumatologia na Disciplina de Teologia Sistemática III. 06/06/2012.
[6] Palavra grega que significa «esvaziamento». A teologia aplica o termo ao ato de Cristo, o Filho e Deus: ao tomar-se homem, o que significa que ele se esvaziou de seus atributos e poderes divinos, embora não de sua natureza divina. Exatamente até que ponto ocorreu esse esvaziamento é ponto disputado, como também como Cristo o fez. Todavia, não se pode chegar a uma resposta adequada, porque, ao tocarmos nessa questão, estamos abordando um dos grandes mistérios divinos. CHAMPLIN, enciclopédia de teologia de filosofia, p.764